22 de jun de 2017

Comportamento suicida.

Vamos falar sobre isso?

Um suicídio impõe aos que ficam o choque e a violência do abandono, desencadeia sentimentos confusos e aparentemente inconciliáveis. A dor causada por um suicídio é silenciada na vida das pessoas e ocultada na história das famílias. Então, sobre o que não se conversa, faz-se de conta que não aconteceu. Embora um tabu social tenda a ocultar a realidade dos suicídios, é preciso falar sobre isso.

Os índices de suicídio vêm aumentando no Brasil, em oposição ao decréscimo observado na maioria dos países nos últimos 10 anos. Uma taxa de 5,8 suicídios para cada 100 mil habitantes por ano é relativamente baixa, se comparada às de outros países. No entanto, por ser populoso, o Brasil ocupa o oitavo lugar entre os países que têm os maiores números de mortes por suicídio.
Segundo as estatísticas mais recentes disponíveis, ocorreram no país 11.821 suicídios em 2012, o que representa, em média, 32 mortes por dia. Essa cifra está subestimada, pois alguns suicídios não são registrados como tais. Uma parcela dos acidentes e das mortes ‘sem intenção determinada’ – como consta nos atestados de óbito – decorre de suicídios.
No espectro do comportamento autoagressivo, o suicídio é a ponta de um iceberg. Estima-se que o número de tentativas de suicídio supere o de suicídios em pelo menos 10 vezes. Um estudo populacional realizado em Campinas (SP), em 2010, em parceria da Organização Mundial da Saúde com a Unicamp, revelou que, ao longo da vida, 17% das pessoas haviam pensado seriamente em pôr fim à vida, 5% chegaram a elaborar um plano para tanto e 3% já haviam tentado o suicídio.

Uma enquete com 1.560 jovens (de 18 a 24 anos de idade) residentes em Pelotas (RS) mostrou que o comportamento suicida caminha ao lado de outros riscos de agravos à saúde, como, por exemplo, acidentes automobilísticos, envolvimento em briga com agressão física, porte de arma branca, uso abusivo de álcool e de outras substâncias psicoativas e relação sexual sem uso de preservativo.

Fatores de risco

A temática do suicídio está aberta a diferentes visões e a várias ciências. Devido à sua natureza polêmica, complexa e multidimensional, não há uma maneira única de se abordar o problema.  Na perspectiva da saúde pública, os chamados ‘fatores de risco’ derivam da consolidação de dados oriundos de estudos populacionais. Na prática clínica, damos um salto referencial, do coletivo para a singularidade de um indivíduo, e assim raciocinamos: se uma pessoa tem fatores de risco para o suicídio, a possibilidade de vir a se matar deve ser considerada.
Transtorno mental e histórico de tentativa de suicídio são os principais fatores de risco de suicídio. A depressão, o transtorno afetivo bipolar, a dependência de álcool ou de outras drogas psicoativas, bem como a esquizofrenia e certos transtornos de personalidade (com características de impulsividade, agressividade e variabilidade de humor) são os que mais predispõem ao suicídio.
Não se trata de afirmar que todo suicídio decorre de uma doença mental. Mas, por estar presente na maioria dos casos, um transtorno mental é um elemento quase obrigatório, ainda que insuficiente, para o suicídio.
Por estar presente na maioria dos casos, um transtorno mental é um elemento quase obrigatório, ainda que insuficiente, para o suicídio
Isso ocorre por diversas razões: a doença dificulta a adaptação à sociedade; leva à estigmatização; diminui a adaptação funcional e a qualidade de vida; frequentemente provoca instabilidade de humor e sentimentos dolorosos, como ansiedade, raiva e frustração; representa um ônus emocional e financeiro para o indivíduo e sua família; predispõe a vários estresses situacionais. Diagnóstico tardio, carência de serviços de atenção à saúde mental e inadequação do tratamento agravam a evolução da doença e, em consequência, o risco de suicídio.
Uma tentativa de suicídio aumenta a probabilidade de futuro suicídio. O ato é ambivalente em sua natureza: além de um grau variável de intenção letal, ele representa uma comunicação, como, por exemplo, um pedido de socorro, motivado pelo desejo de ser resgatado de uma situação insuportável. Por isso, ameaças e tentativas de suicídio – mesmo aquelas que parecem calculadas para não resultarem em morte – devem ser encaradas com seriedade, como um sinal de alerta a indicar sofrimento psíquico e atuação de fenômenos psicossociais complexos.
Durante a adolescência, várias circunstâncias podem desencadear tentativas de suicídio. Os adolescentes são mais propensos ao imediatismo e à impulsividade. Ainda não têm plena maturidade emocional e, dessa forma, encontram maior dificuldade para lidar com estresses agudos, como término de relacionamentos, situações de vergonha ou humilhação, rejeição pelo grupo social, fracasso escolar e perda de um ente querido.
Perfeccionismo e autocrítica exacerbada, problemas na identidade sexual e nos relacionamentos interpessoais, discussões frequentes com os pais, autoridades ou colegas, isolamento social, bem como bullying (face a face ou pela internet) são fatores de risco revelados em várias pesquisas com adolescentes.
O suicídio de colegas, ou de personalidades cultuadas pode se constituir em modelo de comportamento a ser seguido. Nesses casos, fala-se do caráter contagioso – ou de imitação – de certos suicídios.

Sinais de alerta

Os sinais listados abaixo alertam sobre o risco de suicídio em adolescentes.  Também sinalizam a possível existência de transtornos mentais que se iniciam na adolescência ou nos primeiros anos da vida adulta, como a esquizofrenia, a depressão, o uso de drogas e o transtorno afetivo bipolar.
• Mudanças marcantes na personalidade ou nos hábitos
• Comportamento ansioso, agitado ou deprimido
• Piora do desempenho na escola, no trabalho e em outras atividades rotineiras
• Afastamento da família e de amigos
• Perda de interesse em atividades de que gostava
• Descuido com a aparência
• Perda ou ganho inusitado de peso
• Mudança no padrão comum de sono
• Comentários autodepreciativos persistentes
• Pessimismo em relação ao futuro, desesperança
• disporia marcante (combinação de tristeza, irritabilidade e acessos de raiva)
• Comentários sobre morte, sobre pessoas falecidas e interesse por essa temática
• Doação de pertences que valorizava
• Expressão clara ou velada de querer morrer ou de pôr fim à vida

De modo simplificado, podemos dizer que três passos devem ser dados com o intuito de se prevenir um suicídio (é importante memorizar o acrônimo Roc):
RISCO. O primeiro passo é a própria suspeita do risco de uma pessoa vir a se matar. Parece óbvio, mas às vezes isso não nos vem à mente. Com sensibilidade, devemos perguntar sobre ideias de morrer, de se matar...
OUVIR. O segundo passo é ouvir com atenção e respeito, sem julgar, recriminar nem se apressar em preleções morais ou religiosas. Para que essa aproximação aconteça, alguns preconceitos em relação ao suicídio precisam ser desfeitos (ver ‘Crenças errôneas em relação ao suicídio’).
CONDUZIR. O terceiro passo é conduzir a pessoa até um profissional de saúde mental, ou seja, não ficar paralisado.  Para quem se encontra fragilizado e sem esperança, a iniciativa de buscar ajuda geralmente não se dá espontaneamente.

Crenças errôneas em relação ao suicídio

- Se eu perguntar sobre suicídio, poderei induzir uma pessoa a isso
Questionar sobre ideias de suicídio, fazendo-o de modo sensato e franco, fortalece o vínculo com uma pessoa, que se sente acolhida e respeitada por alguém que se interessa pela extensão de seu sofrimento.
- Ele/a está ameaçando o suicídio apenas para manipular...
Muitas pessoas que se matam dão previamente sinais verbais ou não verbais de sua intenção para amigos, familiares ou médicos. Ainda que em alguns casos possa haver um componente manipulativo, não se pode deixar de considerar a existência do risco de suicídio.
- Quem quer se matar, se mata mesmo
Essa ideia pode conduzir ao imobilismo. Ao contrário disso, as pessoas que pensam em suicídio frequentemente estão ambivalentes entre viver ou morrer. Quando falamos em prevenção, não se trata de evitar todos os suicídios, mas sim os que podem ser evitados.
- Veja se da próxima vez você se mata mesmo!
O comportamento suicida exerce um impacto emocional sobre nós, desencadeia sentimentos de franca hostilidade e rejeição. Isso nos impede de tomar a tentativa de suicídio como um marco a partir do qual podem se mobilizar forças para uma mudança de vida.
- Uma vez suicida, sempre suicida!
A elevação do risco de suicídio costuma ser passageira e relacionada a algumas condições de vida. Embora a ideação suicida possa retornar em outros momentos, ela não é permanente. Pessoas que já tentaram o suicídio podem viver, e bem, uma longa vida.

Prevenção é possível

Ainda que não seja tarefa fácil, a prevenção do suicídio é possível. Há vários exemplos de estratégias exitosas, entre as quais:  a conscientização da população (e aqui a mídia tem papel importante), a restrição de acesso a meios letais, a disponibilidade de serviços de atendimento de crises, o treinamento de profissionais de saúde para detectar e tratar adequadamente transtornos mentais, bem como a atenção dedicada às pessoas que tentam o suicídio.
Não podemos silenciar sobre a magnitude e o impacto do suicídio em nossa sociedade. Não todas, mas considerável porção de mortes pode ser evitada.

Sugestões para leitura
ALVAREZ, A. O deus selvagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
BERTOLOTE, J.M. O suicídio e sua prevenção. São Paulo: editora Unesp, 2012.
BOTEGA, N.J. Crise suicida: avaliação e manejo. Porto Alegre: Artmed, 2015.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Preventing suicide: a global imperative. Geneve: WHo; 2014.

Nery José Botega
Faculdade de Ciências Médicas,
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
* Membro fundador da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio

Fonte; Ciência Hoje - dez/2016

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